As eleições municipais de 2024 revelaram uma mudança significativa no cenário político brasileiro. Embora o Partido Liberal (PL) e o Partido dos Trabalhadores (PT) tenham ampliado suas bancadas de prefeitos, o grande vencedor foi o centro político, capitaneado pelo PSD e pelo MDB, que retomaram protagonismo nacional. Esse fortalecimento do centro se deve, em grande parte, ao poder financeiro turbinado pelas emendas parlamentares, especialmente o “orçamento secreto”, que proporcionou altos índices de reeleição.

O Retorno do MDB e a Consolidação do PSD

Com o avanço nas urnas, tanto o PSD quanto o MDB consolidaram suas posições como os grandes articuladores da política local, garantindo um número expressivo de prefeituras por todo o país. O MDB, que historicamente foi um partido de capilaridade nacional, voltou a demonstrar força, aumentando o número de prefeituras e recuperando a relevância que parecia estar se perdendo em ciclos eleitorais anteriores. O PSD, por sua vez, reforçou sua posição de partido estruturado e coeso, abarcando uma fatia considerável de administrações municipais em regiões estratégicas.

Esse fortalecimento do centro foi possibilitado pela injeção de recursos das emendas parlamentares, que favoreceram alianças locais e regionais, além de proporcionar vantagens para os prefeitos que buscavam a reeleição. O “orçamento secreto”, criticado por sua falta de transparência, foi determinante para manter prefeitos no cargo, já que permitiu o direcionamento de recursos para obras e políticas locais, o que aumentou a popularidade dos candidatos apoiados por essas verbas.

O Centro Não é o Bolsonarismo

Um ponto importante a destacar é que, embora o centro tenha obtido vitórias significativas, essa ascensão não representa uma vitória do bolsonarismo. Apesar de o centro, em várias ocasiões, alinhar-se com pautas bolsonaristas no Congresso, ele mantém uma independência em relação à figura de Jair Bolsonaro. Prefeitos eleitos pelo PSD e pelo MDB, por exemplo, não precisaram se apoiar diretamente na imagem de Bolsonaro para garantir suas vitórias.

Vitórias Partidárias, Derrotas Pessoais

O crescimento de prefeituras do PL e do PT simboliza um fortalecimento dessas legendas, ampliando sua presença política e territorial. No entanto, um detalhe crucial não pode ser ignorado: apesar das vitórias numéricas de seus partidos, tanto Bolsonaro quanto Lula não conseguiram atuar como catalisadores de votos para seus candidatos.

Bolsonaro, por exemplo, não foi a figura central de sucesso em cidades onde o PL obteve vitórias marcantes, como em Maceió, onde o prefeito JHC se reelegeu com um alto índice de aprovação, sem explorar sua proximidade com o ex-presidente. Isso demonstra uma autonomia local maior dos candidatos, que preferiram evitar o peso de suas associações com Bolsonaro.

Lula também enfrentou um cenário similar. Mesmo com vitórias importantes de candidatos da sua base, como no Rio de Janeiro e Recife, o fator determinante das vitórias não foi sua imagem ou carisma pessoal. Tanto o prefeito Eduardo Paes, vencedor no Rio, e o João Campos, vencedor em Recife, utilizaram o apoio de Lula como uma parte secundaria da estratégia, sem a necessidade de transformar Lula em peça central da campanha.

O Papel dos Cabos Eleitorais

O fenômeno que fica evidente é a fragilidade da transferência de votos por meio de lideranças nacionais. Tanto Bolsonaro quanto Lula, que em eleições anteriores conseguiram influenciar diretamente os resultados de seus candidatos, viram uma diminuição dessa capacidade em 2024. Exceções existem, mas são raras e não alteram o panorama geral. Esse comportamento foi evidente em São Paulo, onde Ricardo Nunes foi ao segundo turno contra Guilherme Boulos, sem contar com o apoio decisivo de Bolsonaro, que manteve uma postura ambígua em relação à disputa, até flertando com outros candidatos.

A ausência de transferência efetiva de votos por parte dessas grandes figuras políticas sublinha um movimento de maturidade do eleitorado, que, em muitas localidades, optou por candidatos mais focados em pautas regionais, sem depender fortemente de nomes nacionais para legitimar suas candidaturas.

Conclusão

As eleições municipais de 2024 marcaram uma clara ascensão do centro político, com o PSD e o MDB retomando protagonismo em um cenário onde o bolsonarismo e o lulismo perderam força como fatores decisivos nas campanhas locais. O sucesso dessas legendas centristas, em grande parte apoiado pelo poder das emendas parlamentares e pelo “orçamento secreto”, permitiu uma alta taxa de reeleição, refletindo a capacidade de articulação local e regional dos prefeitos eleitos.

Apesar de se alinharem, em algumas ocasiões, a pautas bolsonaristas, a vitória do centrão não pode ser confundida com uma vitória de Bolsonaro. Da mesma forma, o crescimento do PT também não representa uma vitória pessoal de Lula. O eleitorado de 2024 demonstrou uma preferência por pautas regionais e por lideranças locais que souberam se desvencilhar da dependência de figuras nacionais, indicando uma maturidade política que tende a moldar os próximos anos da política brasileira.

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